
Vai por mim, eles não são tão ruins quanto você pensa
O VMB deste ano gerou textos acalorados em diversos sites sobre como a MTV fica prestigiando o emo (Restart ganhou cinco prêmios), como o emo é ruim para o rock, como a música brasileira está um lixo, etc., etc.
Acho que essas pessoas que criticaram (e não foram poucas) não pararam para pensar muito no assunto. O emo é bom para o rock nacional.
Calma que eu explico.
O rock não é um gênero tradicional no Brasil. Ele surgiu com os negros nos EUA, foi refinado no Reino Unido na segunda metade do século passado e, desde o Elvis, se espalhou pelo mundo e ganhou popularidade.
Há uma diferença enorme entre criar sua cultura e agregar um elemento estrangeiro a ela. Os países que receberam o rock não se tornaram produtores dele na mesma medida que EUA e Reino Unido (até hoje, é claro, os maiores pólos do gênero). Isso porque o rock surgiu na cultura desses países após eles mesmos terem desenvolvido a sua própria, e a competição entre uma coisa e outra é desleal.
Veja o Brasil. Agregamos as guitarras na fase da Tropicália (lembram de Caetano sendo vaiado?), os doo-woops com a Jovem Guarda, a psicodelia com os Mutantes... tudo isso veio do rock internacional. Mas nunca criamos uma cena roqueira com uma fração da força que EUA e UK o fazem.

Caetano, roqueiro brasileiro: mistura de Slash, Freddie Mercury e Janis Joplin
E talvez nunca iremos, porque a música natural do Brasil não é o rock. Somos especialistas em seresta, MPB, bossa nova, sertanejo, forró. Para o bem ou para o mal, são nossos ritmos. Se temos 10 milhões de pessoas que gostam de AC/DC no país, temos 150 milhões que gostam de Ivete Sangalo. 40 milhões que gostam de Beatles? Tem 180 que gostam de Roberto Carlos. Gostar de rock é ir “contra” nossos ritmos nativos, e é uma luta que nunca será ganha.
(Só uma explicação: este não é um texto xenófobo sobre a invasão da indústria midiática capitalista à nossa desprotegida e inocente terra-mãe. 90% do que se faz musicalmente no Brasil são péssimos e dou graças aos deuses que existe a internet para que possamos baixar coisas de fora).
Colocado isso, é preciso dizer que o rock brasileiro sempre lutou. E é aqui que chegamos à importância do emo. Se você olhar para o passado, nossas respostas ao rock internacional eram sempre avalanches de vergonhas alheias nacionais. Os anos 80 trouxeram The Cure, The Smiths e synth-pop ao mundo? O Brasil rebateu com Menudo, cantoras apresentadoras de TV, Sidney Magal, Balão Mágico e Trio Los Angeles. Os anos 90 nos deram o Nirvana e o Radiohead? Respondemos com o tsunami das duplas sertanejas. Os anos 00 trouxeram Strokes e Arctic Monkeys? Pois viemos com o axé, o funk carioca e o forró universitário.
Mas o emo é diferente, sabe por quê? Porque é uma onda importada. O emo não nasceu no Brasil, foi fagocitado do estilo de bandas como Panic At The Disco, Simple Plan e Fall Out Boy. Isso faz toda a diferença. No momento, as ondas lá fora são o hip hop (nos EUA) e o grime (no UK). E os produtores nacionais, em vez de irem atrás da próxima corruptela de ritmo regional para rebaterem, correram atrás do emo. Ou seja, bandas com duas guitarras, baixo e bateria em vez de percussão, cavaquinhos e dançarinas bundudas. Pela primeira vez, o Brasil respondeu com rock.

Rock com calças coloridas e penteados alienígenas, mas rock
Claro que rock brasileiro sempre houve, e sempre com algum bom nome se destacando. Mas nunca em forma de movimento (e por “movimento” eu não me refiro ao sentido engajado da coisa, mas ao volume mesmo). E o emo é sim um movimento grande e contínuo. Começou com o NX Zero, foi para o Strike, passou para o Fresno e o Forfun e foi herdado agora por Cine, Restart e similares.
Cine e Restart não são bandas que fazem meu gosto. Mas eu tenho mil vezes mais respeito por um Restart do que por uma Claudia Leitte. Produto de massa por produto de massa, prefiro os quatro moleques que tocam e compõem as próprias músicas.
Eles têm um visual ridículo? Têm. Têm músicas sem sal? Têm. Devem sua fama em boa parte aos rostinhos bonitos e ao marketing bem sacado? Devem. Mas, no fundo, são quatro moleques tocando rock. Quantas vezes você parou para ver os artistas brasileiros da parada e escutou tantas guitarras ao mesmo tempo?


Isso não conta
Daqui a uns dez anos, quando a onda do emo tiver acabado (se tiver), os quatro integrantes do Restart ainda saberão tocar seus instrumentos e, quem sabe, estarão produzindo algo que seja mais do meu gosto ou do seu. Todo mundo amadurece.
Até lá, quem não gosta do som dos meninos pode simplesmente ignorá-los e viver sua vida. E ter a felicidade de saber que, seja bom ou seja ruim, o Brasil finalmente está começando a investir em rock como produto de massa, o que há de abrir portas para muita gente.
3 comentários:
Prefiria que o Brasil continuasse respondendo com Zezé di Camargo.
Amigo, de uma coisa vc tem razão, todo mundo amadurece e quem sabe lá na frente eles comecem a tocar algo que preste. Mas até lá prefiro nem chamar eles de rock...
Tem razão.
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